Artigos e Vídeos Dr. Hélio Borges

Alimentação, Flora Intestinal e Saúde Mental

Publicado em 01/12/2019

Alimentação, Flora Intestinal e Saúde Mental

No passado, o cérebro era intitulado “uma caixa preta”. Hoje novas tecnologias nos mostraram coisas impressionantes sobre este e há ainda muito mais a se descobrir. Curiosamente, uma das vertentes de pesquisas e publicações médicas em neuropsiquiatria que mais se desenvolve não olha diretamente para o cérebro, mas para outro órgão, o intestino, sua flora intestinal, o processo digestório e finalmente o papel que determinado alimento ou componente nutricional possam ter na saúde mental.

O intestino tem mais neurônios que o próprio cérebro, e depois deste é o órgão que mais absorver energia do corpo. A conexão entre a saúde intestinal e mental já era identificada desde a antiguidade. Um dos aforismos de Hipócrates, o pai da medicina, diz: “o intestino é a porta de entrada para a maioria das doenças”.

O papel de micronutrientes como magnésio, vitamina D, gorduras Omega3, vitaminas do complexo B, especialmente B6 e B12 são hoje indiscutíveis. Depressão e carência de vitamina D é achado comum e sua reposição indicada por diversos autores. O papel neuroprotetor da vitamina B12 é tão importante que recentemente foi divulgado um estudo demonstrando que o uso prolongado de medicamentos para gastrite causa má absorção de vit. B12 que por sua vez está associado ao maior número de casos de demenciação.

Afora isto, estudos sobre a evolução humana demonstram que foi o domínio da caça e ingestão de gordura animal que permitiu ao homem a expansão de seu cérebro. Realmente o maior constituinte de nosso cérebro é a gordura. A campanha contra a ingestão de gorduras naturais presentes nos ovos e nas carnes marcou as últimas décadas do século XX. Paradoxalmente foi restringindo a ingesta de gorduras naturais com o incremento da ingestão dos “grãos saudáveis” que se associou a uma explosão de obesidade, problemas cardiovasculares, diabetes e demência. Quanto mais carbohidratos ao longo da vida, menor a longevidade cerebral, assim sugerem estes estudos. O mesmo não se verifica com as gorduras naturais. Muitos autores inclusive lançam críticas e preocupações com a prescrição compulsória de medicamentos para abaixar o colesterol em casos limítrofes.

A flutuação de humor é uma característica marcante da ingestão em demasia de carbohidratos simples, leia-se açúcar e farinhas (mesmo as integrais). Ansioso ou mesmo irritadiço antes da próxima ingesta, demasiadamente relaxado e em êxtase quando ingerido. O pico de glicose carregando o hormônio insulina consigo não é condição obrigatória de uma alimentação regular, é uma deturpação alimentar. Hoje não se examina a fissura por carbohidratos como apenas um transtorno comportamental, mas se olha para o reflexo disto em termos de saúde mental a curto e a longo prazo.

Chama a atenção dos pesquisadores que em populações primitivas de hábitos alimentares de caça e coleta de alimentos, de uma era pré-agrícola, além dos distúrbios endócrinos e cardiovasculares tão comuns em nossa civilização, principalmente a ocidental, são também reduzidos os transtornos neuropsiquiátricos. Embora muitos queiram culpabilizar a genética, ou o “stress da vida moderna” como desencadeadores de nossos males, é impossível não se lançar os olhos sobre as características da alimentação ancestral e compará-la com a moderna.

Mas não só o padrão alimentar de populações primitivas, mas sua flora intestinal tem sido estudada e comparada com a da população em geral. Alias, é das pesquisas sobre estes milhões de serezinhos que vive em nosso tudo digestivo é que vêm as descobertas mais instigantes. A microbiota intestinal tem íntima relação com a saúde e a doença no sistema nervoso central. Assim, há reflexões sobre o papel danoso da antibioticoterapia indiscriminada e a alteração da fermentação intestinal em pacientes com depressão. Também há trabalho que apontam para benefícios de uma antibioticoterapia dirigida a modificar a flora intestinal em casos de autismo ou mesmo algumas encefalopatias.

As conexões entre intestino, os microorganismo que vivem neste, e nosso cérebro são tecidas por um fator fisiopatológico dominante e que nunca chamou tanto a atenção dos pesquisadores: o componente inflamatório de fundo em todas as patologias. Há estudos severamente calcados em anos de pura ciência que vêem a depressão e outras patologias psiquiátricas como manifestações de uma condição que atinge todo o corpo, fundamentalmente o intestino e o cérebro, sendo o termo “conectopatias” o jargão utilizado para expressar isto.

A saúde intestinal é determinada pela integridade de sua flora e por ausência de atividade inflamatória e expressão de seu adoecimento é a perda da integridade de suas paredes, condição que tem sido bastante estudada e alcunhada de “síndrome do intestino descontinuado”. Quando o intestino perde sua capacidade de filtrar os componentes alimentares essenciais há uma progressiva invasão do organismo por proteínas e peptídeos causando inúmeros males. Agrotóxicos, subprodutos do plástico e alguns componentes alimentares em especial o glúten tem grande capacidade de agredir nossa flora e destruir a integridade da parede intestinal, especialmente em alguns indivíduos.

Especialmente sobre o papel agressivo do glúten, há uma crescente gama de descobertas demonstrando que a doença celíaca, condição usualmente pediátrica e grave, é apenas uma versão mais aguda e extremada de uma condição hoje chamada de intolerância ao glúten. Viscoso e com a competência das melhores colas (sendo base de algumas), o glúten é uma das poucas proteínas usuais em nossa dieta que nosso organismo não consegue quebrar por completo. Peptídeos, que são pequenas sequências de aminoácidos permanecem e podem ser tragados por este intestino descontinuado produzindo reações imunes do organismo contra estas partículas e contra si mesmo. Sim, há uma associação íntima entre glúten e auto-imunidade, podendo não ser a causa, mas promotor (ou elemento agudizador) destas patologias, muitas vezes terríveis.

Sendo o intestino servido de uma rica rede de células nervosas sensibilizáveis assim como as do cérebro, há estudos sugerindo tanto que estes peptídeos advindos do glúten como da proteína do leite (chamada caseína) possam sensibilizar o sistema nervoso tal qual um opiácio produzindo não só lentificação do trânsito digestivo mas alterações neuropsiquiátricas em patologias como hiperatividade, autismo e esquizofrenia. Sobre esta proteína do leite, a questão recai sobre a caseína produzida por uma parte dos rebanhos do mundo que é produto de mutações mais modernas não estando o organismo de muitos capazes de digeri-la adequadamente.

Enfim, há muita coisa ainda para se descobrir, coisas a cair por terra, e coisas para se comprovar. Mas como saúde e bem estar são sempre questões urgentes o mínimo destes conhecimentos já podemos usar, até porque medidas e cuidados nutricionais são usualmente menos invasivas e mais naturais do que termos que intervir com fármacos artificialmente criados. Talvez possamos no futuro chegar não só a uma arte não só de curar mas de prevenir inúmeros males que aflige nossa saúde mental.

 

Dr. Hélio Borges de Oliveira Passos

Médico (CRM 16.914) Psiquiatra (RQE 8913) e Psicoterapeuta (RQE 2024)

www.drhelioborges.med.br

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