Artigos e Vídeos Dr. Hélio Borges

Entrevista com Dr. Hélio Borges - 20 anos - feita em 2011 para Revista Mídia e Saúde

Publicado em 25/09/2011

Colunista da revista Mídia e Saúde desde nossos primeiros exemplares, o Dr. Hélio Borges psiquiatra e psicoterapeuta acaba de comemorar vinte anos de prática profissional. Dedicamos estas páginas a uma entrevista com este:
- Como se deu esta escolha pela psiquiatria?
Na adolescência devorava livros de psicologia e filosofia, os grandes psiquiatras do passado, devo tê-los lidos quase todos. Quando ingressei para medicina na Universidade Federal Fluminense já não tinha qualquer dúvida que esta seria a especialidade médica que seguiria. Meus colegas me apelidavam de “doutor cabeça” (risos).
- Do tempo que o senhor se formou até hoje, quais foram as mudanças que o senhor considera relevantes na Psiquiatria?
Quando me formei muitos se referiam ao cérebro como “a caixa preta”. A psiquiatria se polarizava entre os problemas considerados “neuróticos” considerados assunto do divã psicanalítico e a psicose que com o restrito leque de medicamentos e uma cultura excessivamente manicomial terminavam em internação. Assim havia basicamente dois tipos de psiquiatras: aqueles que eram psicanalistas e aqueles que não eram e que normalmente trabalhavam para as clínicas psiquiátricas. As neurociências eram vistas como algo distante da prática médica. Tive sorte de viver uma revolução na especialidade trazida pela chamada “Década do Cérebro”. Foi um momento em que surgiu toda uma gama de medicações e recursos como as imagens funcionais do cérebro que puderam dar um vislumbre e claridade a esta “caixa”. A psiquiatria ganhou um novo impulso e com este a capacidade de identificar e intervir em transtornos de forma mais específica. A sociedade ficou mais cônscia sobre coisas como “pânico”, “TOC”, “depressão” e “transtornos alimentares” e a psiquiatria ganhou uma nova visão do público.
- Então poderíamos dizer que a psiquiatria tinha acertado o “seu rumo”?
Até então havia uma excessiva ênfase psicologista na psiquiatria até porque somos detentores de uma rica herança de conhecimento nesta área. As chamadas “linhas de psicoterapia” tinham todas surgido no século XX nas mãos de médicos como Freud, Jung, Adler, Reich, Perls, Berne e mais recentemente (e ainda vivo) o Dr. Aaron Becker. Também havia um receio excessivo de se medicar até porque o rol de medicamentos era restrito e abundavam os efeitos colaterais. Eufórica por esta nova onda de descobertas científicas que falei, a psiquiatria deu uma guinada na direção de um “organicismo” exacerbado. Depois de alguns anos foi demonstrado que só neuroquímica não era capaz de dar conta de tudo. Ou seja, nem tanto a terra, nem tanto ao mar! Na psiquiatria, assim como deve ser em qualquer especialidade médica, devemos tratar doentes antes de tratar doenças. Então tratar não é simplesmente “achar a combinação certa dos remédios” é encontrar soluções para apaziguar o sofrimento de quem procura o tratamento sejam elas de ordem organicista ou interpessoal.

- Estamos falando da psiquiatria combinada com psicoterapia. É isto?
Requer a psiquiatria em sua essência uma formação humanística do médico e uma habilidade adequada para lidar com o indivíduo, isto lhe dá uma característica psicoterápica. Porém como a matéria é extensa e não basta entendê-la, mas estar treinado dentro de um método e ter um jeito de ver e atuar, considero essencial ter uma formação psicoterápica.
-Como foi a sua formação?
Assim que terminei o curso de medicina já iniciei numa tradicional escola no Rio de Janeiro uma longa formação em Gestalt-terapia na qual não só aprendi os conceitos como também fui pessoalmente treinado para atuar desta maneira. Posteriormente me dediquei a uma segunda formação que foi em Terapia Cognitiva-Comportamental. A “TCC”, como é chamada, me acrescentou muito e é realmente encantadora, mas meu referencial filosófico como indivíduo é dado pela Gestalt-terapia que na verdade por ter -se originado de uma síntese de escolas filosóficas anteriores é uma “visão de mundo” por si só. Costumo dizer que penso como terapeuta cognitivo mas sinto como gestalt-terapeuta. (risos)
- O senhor pode falar mais sobre esta visão humanística em medicina?
A medicina à medida que se sofisticou e se superespecializou perdeu o foco do importante papel que a pessoa do médico tem na vida do paciente. Não há corpo sem indivíduo e nem indivíduo sem corpo. Por maior que seja o determinante biológico de sua patologia, seu curso pode ser ao menos atenuado por uma boa prática na relação médico-paciente. O antigo aforismo médico “curar algumas vezes, aliviar quase sempre, consolar sempre” por si só diz tudo. Não pode haver boa prática médica se o médico acredita que dever ser apenas um prescritor de remédios certos ou um hábil manejador de equipamentos sofisticados. A figura do curador vem de tempos imemoriais. O povo fala comumente que o “médico é um intermediário de Deus”. O profissional não pode esquecer-se destas expectativas que nele são depositadas ao lidar com um paciente.
- Como você vê o futuro da profissão médica?
Ser paciente, estar padecendo não é fácil. Ser médico também não é. Estamos num momento onde a classe médica despertou para a necessidade de valorizar-se e assumir o lugar que lhe é de direito. A pessoa do médico, sua capacidade orientadora, protetora e discriminativa não pode ser substituída. Por mais que se recorra hoje ao “doutor Google” vê-se nas pessoas esta busca por um atendimento humanístico e pessoal. Acredito que estamos vivendo um momento de uma inversão de uma medicina de quantidade para uma de qualidade. As pessoas buscam isto atualmente.
- E o futuro da especialidade psiquiatria?
Acredito que a tendência da psiquiatria é cada vez mais a integração dos clássicos conhecimentos da dinâmica psíquica com os avanços das neurociências. A Terapia Cognitiva-Comportamental é hoje a prática psicoterapêutica que melhor representa esta junção das duas instâncias do indivíduo. No campo do tratamento biológico teremos medicamentos cada vez mais precisos e perfeitos, mas o que acredito que despontará cada vez mais são as técnicas de modulação do sistema nervoso. A Estimulação Magnética Transcraniana é só o início. A medicina exclusivamente química dará lugar a físico-química.
- Ainda há tabu em relação a ir ao psiquiatra? Como o senhor percebe a aceitação da idéia de freqüentar um psiquiatra atualmente?
As coisas mudaram bastante. Com todos estes avanços científicos e massificação dos conhecimentos que felizmente acontece atualmente no mundo, as pessoas estão se tornando mais abertas a entender da necessidade de ajuda para problemas de ordem emocional e comportamental. A figura do psiquiatra se libertou daquele profissional que lidava com casos extremos em instituições asilares. Tornou-se rotina na vida de muitas famílias, pois os tempos são complexos e os transtornos psiquiátricos se avolumam. Interessante notar quantas produções de cinema e televisão tem psiquiatras ou assuntos psiquiátricos em seus roteiros.
- A vida é simples ou as pessoas que complicam?
De certa forma sim. Problema há. Aos montes podemos dizer. Mas a maior parte do sofrimento que vemos na prática psiquiátrica não se dá apenas pelo problema em si, mas pela interpretação e a reação que o indivíduo dá a este. De certa forma, a vida não é o que nos sucede, mas como a percebemos.
- Por que o sofrimento psíquico parece tão comum nos dias de hoje?
Diversas coisas. Pensamos mais. Lidamos cada vez com um mundo mais complexo. Estamos cada vez menos propensos a explicações prontas para as coisas e um inocente mundo de fantasias sobrenaturais. A humanidade desperta e sofre com isto. Melhor assim. Afora isto as pessoas estão adquirindo o hábito de se expressar, coisas que antigamente não era bem aceita.
- Qual é em sua opinião a maior dificuldade do ser humano?
Bem, esta não é uma opinião minha. Vem da clássica sabedoria oriental: o apego. O sofrimento advém de não saber fluir com a vida e seus acontecimentos. Quando não admitimos transformações e perdas, sofremos. Sofre o jovem porque não sabe esperar e parece que tudo é para ontem. Sofre o maduro que acredita que tudo é para hoje. Sofre o idoso que lamenta um curto amanhã ao invés de curtir o presente.
- As pessoas têm a capacidade de ser transformar e mudar suas vidas? O que dizer?
O referencial humanista-existencialista no qual sou formado se baseia na crença na autodeterminação. Desde que assim o indivíduo o queira é possível o auto-aprimoramento. Porém voltando à idéia do apego, há quem se apegue de tal maneira à própria personalidade e sua visão de coisas que fica impossível o questionamento. E sem questionar crenças e valores fica difícil a transformação. Normalmente procura pela psicoterapia aquele que acredita mais na competência a ser descoberta dentro de si do que nos desígnios de seu destino.
- Fale dos artigos que escreve mensalmente para esta revista há nove anos. Como é escrevê-los?
Primeiramente devo agradecer aqui ao editor da Mídia e Saúde o jornalista Alderi Rabelo por sua crença em minha capacidade como articulista e grande incentivador desta carreira literária (risos). Realmente já são anos. Já passam de uma centena de artigos publicados. Ao longo destes tempo, tem sido motivador ver a aceitação do público a cada artigo publicado. É gratificante ouvir o relato daqueles que de uma forma ou de outra reformularam posturas e repensaram suas vidas com a ajuda destes ensaios. Interessante perceber que pacientes chegam motivados a discutir o último artigo e que sessões terapêuticas se renovem a partir destes temas. Escrever estes artigos não costuma ser fácil, pois procuro passar mensagens sem usar de prolixidade. Normalmente meu senso perfeccionista me faz reescrevê-los mais de uma vez. Há, entretanto uns que saem em borbotões de uma vez só. Normalmente são os que ficam melhores. (risos).
- Qual seu objetivo ao escrevê-los? Como preserva o estilo da coluna? Como é o processo de inspiração?
Adverso ao tom triunfalista e de “fórmulas prontas” comum em obras do segmento de “auto-ajuda” e “Crescimento Interior”, procuro manter sempre um caráter reflexivo-filosófico para cada tema tratado. Estimulo a espiritualização sem tender para nenhuma corrente religiosa ou cultural específica. Abordo questões universais e até mesmo atemporais, com linguagem cuidadosamente acessível, sem hermetismos ou divagações, mas de aplicabilidade direta na vida diária e mobilização no íntimo de cada leitor. Minha inspiração advém da prática de vinte anos de profissão. Das questões que vejo muitas vezes se repetir na vida das pessoas, nas minhas reflexões sobre as questões da vida. Aprendo muito com meus pacientes e fazer estes artigos é uma forma de condensar e transmitir este aprendizado.
- E a idéia de um livro com estes artigos?
Sim, esta está viva. É questão de juntar um número razoável destes e compilá-los em um livro. Já trabalho na idéia há algum tempo. Amigos, pacientes e mensagens de desconhecidos me pedem que eu o faça. Legal não...
- O fato de ser psiquiatra lhe proporciona condições de lidar de formas diferentes com os problemas?
Afora anos de psicoterapia ao qual me submeti, também aprendo diariamente sobre a vida e seus dilemas ao lidar com meus pacientes. Afinal sábio é aquele que consegue aprender com os erros alheios sem precisar cometer os próprios. Porém nem sempre é fácil e todos nós temos um pé pronto para tropeçar.

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